O Mundo de uma jornalista...
Sábado, Janeiro 22, 2005
 
A Caminhada
O que é que faz com que mais de uma centena de pessoas se reuna às nove horas da manhã de Sábado para percorrer três horas a pé, por caminhos às vezes traiçoeiros? Será promessa? Não. Pura e simplesmente trata-se de um grupo de pessoas, de entre as quais, jovens, adultos e menos novos, que se juntam para andar, conversar e encontrar novos caminhos. Desta feita o caminho percorrido foi entre a cidade dos Jesuítas até ao Monte Padrão, sito na freguesia de Monte Córdova, concelho de Santo Tirso.
É sob o mote “um dia de caminhada, saúde prolongada” que cerca de 120 pessoas se reuniram para andar monte a cima. O tempo estava convidativo, com temperatura amena e um sol simpático. O grupo lá partiu, sempre sob a vigilância e protecção do departamento de desporto da Câmara Municipal de Santo Tirso que, através dos seus técnicos de educação física, nada deixava ao acaso.
A explicação para a adesão de tal actividade pode ser de vária ordem: “olhe que faz muito bem andar a pé”; “eu faço muito desporto e gosto deste tipo de actividades”; “vim porque a minha amiga insistiu para eu vir, embora não me apetecesse muito porque o Sábado é dia de eu arrumar a casa, mas enfim... aqui estou”.
Munidos de roupa leves, botas de montanha ou sapatilhas, chapéus, pequenas mochilas com mantimentos e uma espécie de bengala “para ajudar a subir”, foram os objectos considerados indispensáveis para a caminhada. Afinal são mais de sete quilómetros a pé, sempre a subir, o que se traduz numa média de três horas e meia a andar.
Para as crianças tudo serve para ser observado e motivo de brincadeira, os adultos vigiam os seus pequenotes e lá vão dando uma mãozinha aos menos jovens que, apesar da bengala, vão acusando algum cansaço. Ainda assim tudo está sob controlo, afinal, os membros deste grupo de caminhada já se vão conhecendo de actividades similares anteriormente realizadas, e o passeio até serve para por a conversa em dia.
“Estas caminhadas são boas porque uma pessoa sempre aproveita para desabafar um bocado. Os problemas são muitos, a vida tem muitas complicações e, parecendo que não, aqui a gente fala com alguém e até vai para casa mais leve, apesar do cansaço”, explica Antónia Fonseca, natural de Roriz.
“Em vez de trazer a mochila com enlatados e agasalhos, trago o meu filhote”, explica João Pinto, 41 anos, natural e residente no Porto, que se confessa “um amante de caminhadas e de montanhismo. Gosto deste tipo de iniciativas e resolvi vir”. O Vicente, com 15 meses, também participou na caminhada, sempre protegido pelo pai que, estando de tal forma confortável aproveitou para dormir uma soneca. Ops...a reportagem do COMÉRCIO fez um pouco de barulho a mais e o pequenito acabou por acordar. Pouco bem disposto, é certo, mas a mãe explica que “é normal... está na hora dele comer”.
Maria de Jesus Coutinho, de 65 anos e natural de Santo Tirso, também aproveitou para comer “umas bolachas e fruta que trouxe previamente arranjada de casa”. Esta caminhante sénior explica que costuma fazer “ginástica, natação e musculação todas as semanas, e que sempre que há actividades deste género eu venho sempre. Acho imensa piada a isto”, explica, perfeitamente satisfeita, Maria de Jesus.
Chegados ao local tão ansiado, o cimo do Monte Padrão, há que parar um pouco para respirar, descansar mas de acima de tudo, desfrutar da paisagem. Mais do que isso, e como fez questão de salientar um dos membros da organização, “há que sentar confortavelmente, cruzar as pernas, fechar os olhos, ouvir e distinguir todos os sons que aqui temos e relaxar durante três, longos e bons minutos”.
Estas declarações foram assimiladas que nem palavras de ordem. O silêncio surgiu, até o pequeno Vicente silenciou perante bonita atitude, e uma espécie de boa energia emanou a cidade dos Jesuítas.
Três minutos depois, e sem qualquer tipo de pressa ou stress, os aventureiros rumaram até a um autocarro que os trouxe de novo à base. De volta ao stress e à confusão, é altura para lembrar que o “Turismo Pedestre Ecológico é uma forma de reencontrar, ao ritmo lento dos nossos passos, o mundo natural do qual o homem moderno sente, cada vez mais, a necessidade de se aproximar”, como explicou Fernando André, professor de educação física.
O objectivo da iniciativa passa por divulgar os percursos existentes no concelho de Santo Tirso, por muitos que os desconhecem, e dinamizar a população “sedentária” para uma vida activa como forma de combate ao stress e de manutenção de saúde e da boa disposição.
Um novo evento já tem data marcada: 19 de Março, Dia do Pai, para mais um dia de caminhada, para uma saúde prolongada...


Domingo, Janeiro 16, 2005
 
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Quem nem um passe de mágica...

Uma casa abandonada, em ruínas e que servia de abrigo clandestino para desalojados, toxicodependentes e moribundos, renovou-se e transformou-se num local onde essas mesmas pessoas podem encontrar um prato de sopa, um naco de pão e uma peça de fruta. Em plena avenida central da cidade de Vila Nova de Famalicão nasceu uma cantina social. Com responsabilidade da Associação de Solidariedade Social “Dar as Mãos” e a boa vontade de voluntários e de empresários que se disponibilizaram a ajudar o outro, a infra – estrutura abriu portas para matar a fome.
“Ninguém imagina a falta que isto faz. De um momento para o outro a vida muda e um homem vê-se sem casa e sem nada para comer. Com esta cantina mesmo no centro da cidade acho que, mesmo ao frio, vou conseguir dormir mais descansado só em pensar que, pelo menos, vou ter uma sopa para me aquecer o estômago”, rejubilou Joaquim Gonçalves, 43 anos.
Francisco Costa concorda com o seu companheiro de rua e relembra que “dantes vínhamos para aqui para nos drogar e abrigar. Isto estava tudo sujo, cheio de seringas e porcaria. Agora não. Podemos vir para aqui com gosto porque isto está tudo renovado, limpinho e, ainda por cima, vamos poder comer qualquer coisa sem ter de andar a pedir pão e misericórdia na padaria aqui ao lado”.
É precisamente a padaria a que Francisco se refere que fornece o pão para a cantina. A proprietária do estabelecimento, que pediu para não ser referido o seu nome, explicou que “se todos ajudarmos nada custa. Afinal, eles iam, todos os dias, pedir pão ou qualquer coisa para comer. Desta forma ajudo não só aqueles que costumavam ir à padaria, como todos os outros que necessitam de ajuda e de algo para comer”.
O responsável pela associação “Dar as Mãos”, Agostinho Fernandes, assumiu tratar-se “de um momento histórico para a cidade e para aqueles que mais necessitam. A partir de agora, para além de ajudarmos mulheres vítimas de violência doméstica, pessoas que necessitam de roupa, medicamentos, óculos, ajuda psicológica, entre outras coisas, vamos conseguir matar a fome a algumas pessoas”.
Agostinho Fernandes salientou ainda que “com a boa vontade e humildade de todos, consegue-se criar uma rede de ajuda e de solidariedade, renovando um espaço degradado como este e dando vida e dignidade aos mais necessitados”.
A cantina social fornece, assim, um prato de sopa, ao almoço e ao jantar, a quem lá se dirigir, não servindo de espaço de abrigo nem de permanência para os seus frequentadores. “As pessoas que aqui vierem tem de fazer a refeição aqui dentro, não sendo permitido a deslocação de qualquer alimentação para o exterior do edifício, assim como não podem pernoitar neste local”, explicou o responsável.
O Arcebispo Primaz de Braga, D. Jorge Ortiga, que preside à mesa de assembleia da Associação “Dar as Mãos”, destacou que “a inauguração desta cantina social surge numa bonita quadra, mas vem provar que o Natal não é só um dia, nem quando um homem quer. Têm de ser vários homens, com muita consciência e sentido de solidariedade e voluntariado, por forma a nada faltar a quem mais precisa. É necessário ter sempre em atenção que nenhum de nós sabe o dia de amanhã e de que aquilo que poderá necessitar”.

 
Os secretos segredos do músculo da Vida

Miklos Féher e Sousa Franco tinham idades diferentes, profissões distintas e esforços físicos igualmente diferentes. Viviam em mundos desiguais mas, tal como a Maria, o José, a Margarida e o Jorge, foram atraiçoados pelos segredos do coração.
As doenças cardiovasculares, os enfartes de miocárdio e as mortes fulminantes são uma dura realidade. Os números são tudo menos animadores. A Organização Mundial de Saúde prevê que, pelo menos até ao ano 2020, esta patologia continue a ser a principal causa de doença, de morte e de incapacidade a nível mundial.
Em Portugal, no último ano, de um total de 105.813, ocorreram cerca de quarenta e uma mil mortes por doenças cardiovasculares, das quais vinte e uma mil por acidente cérebro- vascular e mais de nove mil por enfarte do miocárdio. Um em cada cinco portugueses morre, todos os anos, por causa de um acidente vascular cerebral.
A situação em Portugal e no mundo apresenta algumas nuvens negras tendo em consideração que as doenças cardiovasculares são muito dependentes do estilo de vida.
A urbanização crescente da população levou a mudanças pronunciadas do estilo de vida, com redução dos níveis de actividade física, que são os mais baixos da União Europeia, e à adopção de um regime alimentar demasiado rico em gorduras saturadas e sal, e pobre em fibras vegetais, causando taxas crescentes de obesidade.
Enquanto que as doenças e as mortes surgem a um ritmo alucinante, a falta de informação e de interesse, por parte dos ‘stressados’ cidadãos, também aumenta. No entanto, do outro lado do campo, as investigações acontecem a um ritmo lento, com poucos meios e escassa capacidade financeira.
Não ponha em risco o seu coração e fique a conhecer a equipa que, em Portugal, investiga e estuda os segredos do coração, com brilhantes resultados.
Trata-se de um grupo de vinte pessoas que, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, desenvolve as suas investigações de uma forma contínua e multidisciplinar.
A equipa liderada pelo doutor Adelino Leite- Moreira, professor responsável pela Unidade de Investigação e Desenvolvimento Cardiovascular, inserida na Unidade da Fundação para a Ciência e Tecnologia, apresenta um curriculum invejável.
Num espaço de apenas sete anos, este grupo de investigação ganhou quarenta prémios; publicou 90 textos científico – pedagógicos nas melhores edições mundiais da especialidade; realizou mais de 200 comunicações em congressos, a maior parte das quais também publicadas em forma de resumo em revistas internacionais; tendo sido, ainda, citado mais de 300 vezes por diversos autores.
De visita a esta unidade de investigação é patente a total entrega, coragem e perseverança dos seus membros. Através de um claro trabalho em equipa, diariamente são realizados testes e investigações, onde os dados são cruzados e analisados com o objectivo de serem encontradas respostas.
Os meios estão longe de ser os ideais mas, ainda assim, não é motivo suficiente para barrar os estudos. Os excelentes resultados que, paulatinamente, vão sendo conquistados são o alimento e força para que a equipa progrida casa vez mais e melhor.
Os ratos e, pontualmente, os coelhos, são utilizados por esta equipa, para realizarem os seus estudos. As conclusões deste grupo de investigação revelam-se preponderantes para a forma como esta patologia é interpretada, modificando as certezas existentes anteriormente.
Aquilo que podemos constatar é que há ainda muitos segredos que o coração faz questão de esconder, mas que este grupo de investigadores vai teimando em descobrir.

As descobertas importantes

O professor Adelino Leite- Moreira afirma que os ratos são os animais eleitos para a investigação “porque são os mais baratos, ocupam pouco espaço e reproduzem-se muito rapidamente” além de respeitarem as regras internacionais referentes ás experiências no âmbito da investigação científica.
Foi através da observação destes animais que a Unidade de Investigação e Desenvolvimento Cardiovascular, da Faculdade de Medicina do Porto, fez descobertas que vieram revolucionar a forma como toda a classe encarava esta doença.
“Nós estudamos a descrição dos determinantes da função cardíaca e diastólica do coração intacto. Ou seja, tentamos perceber os processos pelos quais o coração relaxa e enche, como se de uma bomba se tratasse”, explica o professor. “Durante muitos anos as perturbações da função diastólica não foram tidas em conta para explicar a disfunção e a insuficiência cardíaca embora se saiba, actualmente, que a função diastólica, o tal funcionamento igual a uma bomba, está presente em dois terços dos doentes com insuficiência cardíaca”, adianta Adelino Leite- Moreira.
Isto significa que este estudo tenta perceber o que é que faz com que o coração encha bem ou mal. Visa perceber o que perturba o relaxamento normal do coração. Para o efeito, estudam corações considerados saudáveis e outros com patologias.
Existem também estudos que apontam no sentido de “esclarecer os mecanismos pelos quais o coração progride da normalidade para a insuficiência”, ou seja, “perceber os mecanismos que levam à sobrecarga do coração, nomeadamente no caso da hipertensão arterial”, explica o responsável pela equipa de investigação.
Os estudiosos levam a cabo esta análise através de três fases, por eles denominadas de coração in situ, músculo isolado e caracterização das alterações moleculares. Através deste processo tentam “perceber que respostas aparecem nos músculos e no organismo, ou seja, o que faz com que essas células funcionem mal”.
Através desta investigação chegaram à importante conclusão de que “tais processos, os que levam à insuficiência cardíaca, são diferentes no ventrículo direito e no ventrículo esquerdo e que, para além disso, uma alteração que afecte predominantemente um dos ventrículos, vai influenciar o outro”, explica o docente.

Barreiras e barreiras...

Para além do dinheiro e dos meios não serem suficientes, sempre que esta equipa é premiada, a quantia monetária desse prémio é canalizado para a unidade de investigação. De ressalvar que muitos dos prémios são ganhos a título particular.
Adelino Leite- Moreira explica que “a obtenção de financiamento é muito competitiva, tendendo a ser cada vez pior. O investimento está ainda muito dependente das fundações governamentais e das sociedades científicas. Como há pouca tradição de mecenato científico, os meios privados e a indústria não investem.”
Apesar desta equipa apresentar resultados de investigação fantásticos, Adelino Leite- Moreira receia que ”estas barreiras de natureza orçamental e de meios disponíveis façam com que percamos competitividade com os concorrentes a nível mundial. As barreiras deles são, necessariamente, inferiores às nossas”.
Relativamente ao facto de o Governo ter anunciado um novo pacote de medidas no sentido de investir e incentivar a investigação científica, o professor afirma: “encaro com satisfação a medida. Aguardo para ver a verdadeira dimensão do projecto. Não podemos esquecer que estas medidas têm de ter enquadramento e acompanhamento integral”.
Alerta Vermelho!

Prevenir está nas mãos de todos. Neste sentido, e enquanto que as investigações prosseguem, há que não por em risco o coração e seguir algumas regras de ouro para mantê-lo saudável.
Como explica o doutor Adelino Leite- Moreira, “a nível cardiovascular, há factores de risco bem identificados. Alguns são não modificáveis, mas há os que são modificáveis: obesidade, diabetes, tabagismo, hipertensão arterial, colesterol, etc... Estes são factores modificáveis que, controlados, podem alterar, significativamente, a evidência e a evolução desta patologia. “
Esteja atento aos factores de risco das doenças cardiovasculares e memorize estes números.
- 200 é o limite saudável dos níveis de colesterol. O colesterol é formado por uma parte boa (o HDL) e uma parte prejudicial (o LDL). Quando o nosso colesterol total está acima dos 200, geralmente significa que a parte ‘má’ está demasiado alta. Acima dos 130 faça regularmente análises ao sangue;
- 100 é o nível máximo de glicose (ou açúcar) no sangue. O índice glicémico alto é, também, uma das características da diabetes, que é um factor de altíssimo risco nas doenças cardiovasculares;
- 12/8 são os valores normais para a tensão arterial de um adulto saudável;
- 30 minutos de exercício físico diário. Os cardiologistas avisam que basta caminhar a passo acelerado durante meia hora por dia para reduzir 35% o risco de doença cardíaca.
Se faz parte do lote de pessoas que ainda acham que as doenças cardiovasculares tem idade, profissão, sexo e hora certa, desengane-se. É melhor parar para pensar que, em primeiro lugar, o coração guarda ainda muitos segredos, para isso as investigações prosseguem; depois aceite os conselhos e lute contra os números, que são autênticos alertas vermelhos, das doenças cardiovasculares.
Lembre-se que os progressos conseguidos na investigação dos seus aspectos clínicos e terapêuticos, não foram ainda suficientes para se conseguir uma alteração significativa da sua dimensão de grave problema de saúde.
Por isso fique com os dez mandamentos para um coração saudável:
1º - faça exercício regularmente,
2º- vigie a sua tensão arterial,
3º- saiba se é diabético,
4º- tenha momentos de lazer,
5º- controle o seu colesterol,
6º- evite o excesso de peso,
7º- escolha bem a alimentação,
8º- não fume,
9- consulte seu médico periodicamente e,
10º- acima de tudo, diminua o stress diário.



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